Antes dos 3 anos, uma criança não partilha no sentido em que os adultos entendem a palavra — e isso é desenvolvimento normal, não má educação. A posse (“é meu”) é uma fase necessária. A partilha espontânea e consistente aparece entre os 4 e os 6 anos. Até lá, o que funciona é partilhar por turnos: uma acaba, a outra espera acompanhada.
Uma nota sobre as palavras. Em Portugal diz-se partilhar; no Brasil, compartilhar. É a mesma coisa e vale tudo o que está aqui escrito.
Porque é que antes dos 3 anos partilhar não é possível
Partilhar exige três operações mentais em simultâneo: perceber que o outro quer aquilo, imaginar como ele se sente sem o ter, e travar o próprio impulso o tempo suficiente para agir em função disso. A última é a que falha. O controlo de impulsos depende de zonas do cérebro que amadurecem devagar ao longo de toda a infância — e nos primeiros cinco anos estão apenas a começar.
Uma criança de 2 anos consegue perceber que o amigo está triste. O que não consegue é chegar a essa conclusão enquanto está ela própria em pico de desejo, com o objecto na mão. É o mesmo motivo por que a mesma criança sabe que não se bate e bate na mesma quando fica furiosa.
Daí que a instrução “partilha” seja, para ela, tão útil como pedir a um bebé de 8 meses que ande. Não é falta de vontade: falta o equipamento.
A posse é uma fase, não um defeito
Entre o ano e meio e os 3 anos, a criança está a construir a noção de que existe separadamente das outras pessoas. As coisas são um dos instrumentos dessa descoberta: este copo é meu, esta camisola é minha, esta almofada é minha — logo, eu existo e sou diferente de ti.
Por isso “é meu” nesta idade significa muitas vezes só “isto interessa-me agora”, incluindo sobre objectos que nunca foram dela e que estão a ser usados por outra criança. É precisamente o facto de estarem a ser usados que os torna interessantes: um brinquedo nas mãos de outro parece sempre melhor.
Uma criança que defende o que é seu está a fazer o trabalho certo para a idade dela. A generosidade constrói-se depois, e constrói-se melhor em cima de uma noção de posse bem estabelecida — dificilmente se dá o que ainda não se percebeu que se tem.
Turnos em vez de partilha: a mudança que resolve metade dos conflitos
Há duas coisas diferentes com o mesmo nome:
- Partilhar em simultâneo — dividir as peças, brincar os dois ao mesmo tempo com o mesmo material. Funciona com plasticina, blocos, água, areia, tintas.
- Partilhar por turnos — um usa, acaba, o outro usa. É a única forma possível com objectos únicos: o triciclo, o boneco preferido, o camião vermelho.
Para uma criança pequena, “partilha” soa a “perde para sempre”. “A seguir é a tua vez” é uma promessa concreta e verificável. Mude o vocabulário e metade das lutas mudam de natureza: deixa de ser uma disputa de posse e passa a ser uma questão de espera.
O método de esperar pela vez sem cronómetro
O reflexo habitual é o cronómetro: dois minutos para um, dois minutos para o outro. Parece justo, e cria três problemas. A criança que está a brincar passa o tempo todo a defender-se do relógio em vez de brincar. A que espera fixa-se na contagem. E o adulto transforma-se em árbitro permanente, com um alarme a tocar a cada dois minutos.
A alternativa é simples e resulta melhor:
- Anuncie a fila em voz alta. “O João está a usar o camião. A seguir és tu.”
- Não meta tempo. Quem está a brincar acaba quando estiver satisfeito. Ninguém lhe tira nada.
- Acompanhe quem espera. É aqui que está o trabalho todo. Sente-se ao lado, nomeie (“é difícil esperar, tu querias já”), e ofereça alguma coisa para fazer entretanto — outra brincadeira, colo, dar uma volta.
- Avise o que está a usar. “Quando acabares, chamas a Maria, que é a vez dela.” Dá-lhe controlo sobre o fim, em vez de lho retirar.
- Marque a passagem. Quando o brinquedo muda de mãos, note o que aconteceu: “deste-lhe o camião. Ela estava mesmo à espera.”
O efeito é contra-intuitivo mas repete-se: as vezes acabam mais depressa. Uma criança que não está a ser ameaçada com o fim larga o brinquedo por saturação, muitas vezes ao fim de um ou dois minutos. E aprende as duas competências que realmente importam — esperar e devolver — em vez de aprender apenas que os adultos apitam.
Funciona em casa, no parque e entre irmãos. Nos primeiros dias exige mais presença do adulto do que o cronómetro; ao fim de duas ou três semanas exige muito menos, porque as crianças passam a anunciar a fila sozinhas.
Visitas em casa: o que fazer antes de a campainha tocar
Um conflito evitado poupa mais do que dez conflitos bem geridos.
- Deixe-a escolher dois ou três brinquedos preciosos e guardá-los, num armário ou numa caixa fechada, antes de a visita chegar. É ela que escolhe. Não é um privilégio injusto: é a diferença entre poder ser generosa com o resto e ter de defender o que é insubstituível.
- Deixe à vista o que se usa em conjunto: blocos, plasticina, carros repetidos, lápis, bolas, animais. Material que dá para dois evita a disputa por design.
- Avise antes: “vêm cá o Tomás e a Rita brincar, e depois vão-se embora e os brinquedos ficam todos aqui.” A ideia de que as coisas voltam não é óbvia aos 3 anos.
- Tenha um segundo exemplar do que gera guerra, se for barato. Dois baldes evitam vinte minutos de negociação.
- Não anuncie a criança como anfitriã perfeita à porta (“agora vais emprestar tudo, está bem?”). É uma promessa que ela não pode cumprir.
O que não fazer
Tirar o brinquedo das mãos e entregá-lo a outra criança. Ensina exactamente aquilo que não queremos: quem tem mais poder decide quem fica com o quê. E aumenta a posse defensiva, porque a criança aprende que os objectos podem ser confiscados a qualquer momento.
Envergonhar. “Não sejas egoísta”, “olha que feio”, “então e os teus amigos?”. A vergonha não ensina competências. A criança fica com a vergonha e continua sem saber esperar, negociar ou pedir — e, com repetição, com a ideia de que aquilo que sente é errado.
Obrigar a dar para acabar depressa. Resolve o momento e adia o problema para o dia seguinte, ligeiramente maior.
Interpretar como carácter. “Ela é muito possessiva.” Aos 2 anos, todas são. Rotular à frente da criança tende a cumprir a profecia.
Intervir logo ao primeiro atrito. Se não há perigo, espere alguns segundos. Muitas disputas resolvem-se sozinhas, e é nessa margem que as crianças treinam a negociação. Se o conflito escala para bater ou morder, aí sim entra-se — e o assunto passa a ser o que fazer quando a criança bate, que é outra conversa.
Como isto evolui dos 2 aos 6
- 2 anos — Posse total. “Meu” aplica-se a tudo o que está à vista, incluindo o que é dos outros. Brinca ao lado de outras crianças mais do que com elas. Estratégia do adulto: prevenir, duplicar objectos, separar. Não esperar partilha.
- 3 anos — Percebe a ideia de “a seguir é a tua vez” quando um adulto a mantém. Continua a precisar de ajuda em quase todos os conflitos. Começa a suportar melhor a espera se estiver acompanhada.
- 4 anos — Aparecem as primeiras trocas negociadas: “dás-me o azul e eu dou-te o vermelho”. Já usa a partilha para manter a brincadeira a andar, sobretudo no faz-de-conta, onde precisa do outro para a história continuar — é também a idade em que o brincar sozinho e o brincar acompanhado se alternam melhor. Ainda falha quando está cansada ou com fome.
- 5-6 anos — Partilha espontânea e regras próprias inventadas pelo grupo. Aparece uma noção de justiça exigente, que às vezes é aplicada com mais rigor aos outros do que a si própria. As disputas passam a ser por regras, não por posse.
Duas notas transversais. Sono e fome desfazem qualquer competência recém-adquirida: uma criança de 5 anos cansada partilha como uma de 2, e isso não é regressão. E a diferença entre irmãos com poucos anos de intervalo é sistematicamente injusta — pedir ao mais velho que ceda “porque é mais crescido” é o caminho mais rápido para ele associar o irmão a perder coisas.
O que dizer no momento
Uma sequência curta, que serve para quase todos os casos: descrever, dar o plano, acompanhar.
- “Tu queres o camião e ele também quer.” (descrever, sem culpados)
- “Ele está a usar agora. A seguir és tu.” (plano)
- “É chato esperar. Anda daqui comigo enquanto esperas.” (acompanhar)
E quando ela conseguir, seja específico: “deste o camião à Rita quando acabaste. Ela ficou contente.” Descrever o que aconteceu ensina mais do que “muito bem, és uma menina generosa” — porque nomeia a acção, que se pode repetir, em vez do rótulo, que não se sabe como se ganha.
Nada disto acelera muito o calendário biológico. O que faz é impedir que um processo normal se transforme numa luta diária, e garantir que, quando a capacidade de partilhar chegar, a criança já tenha praticado as duas coisas de que ela precisa: esperar sem ser humilhada e dar sem ser obrigada.
Veja também: Brincar sozinho por idade | Quando o filho bate e morde
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