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O meu filho bate e morde: porque acontece e o que fazer nos primeiros 30 segundos

Bater e morder tem um pico previsível entre os 2 e os 3 anos e quase nunca é um problema de carácter. O que a investigação mostra, um guião para o momento e os sinais que justificam pedir ajuda.

· Nuno Simões

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É ao fim da tarde, à porta da creche (berçário), e a educadora vem ter contigo com aquela cara. Houve um episódio. O teu filho mordeu um colega (coleguinha) por causa de um camião de plástico, e agora há uma marca de dentes num braço que não é o dele.

O que vem a seguir costuma ser pior do que o episódio: uma noite inteira a perguntares-te em que ponto é que isto correu mal. Se és demasiado permissivo. Se ele vai ser aquela criança. Se todos os outros pais já sabem.

Vale a pena tirar essa camada de cima primeiro, porque não ajuda em nada e está factualmente errada. Bater e morder aos dois anos não é um sinal de mau feitio nem de falha educativa. É um comportamento com uma curva de desenvolvimento tão previsível que os investigadores lhe deram nome.

A curva que quase ninguém conhece

Em 2006, uma equipa liderada por Lenneke Alink publicou na Child Development um trabalho com mais de duas mil crianças holandesas entre os 10 e os 50 meses, com o objectivo de mapear quando é que a agressão física aparece e quando desaparece. Chamaram-lhe the early childhood aggression curve.

O que encontraram: comportamentos de agressão física já existem aos 12 meses, aumentam ao longo do segundo ano de vida, atingem o ponto mais alto por volta dos 2 aos 3 anos — e declinam a partir do terceiro aniversário, sem que ninguém faça nada de especial para isso.

O estudo canadiano de Richard Tremblay e colegas, publicado em 2004 na Pediatrics, chega ao mesmo lado por outro caminho. Seguiu 504 crianças aos 5, 17, 30 e 42 meses e identificou três trajectórias: cerca de 28% com agressão física baixa, 58% com um aumento moderado, e 14% num grupo de agressão alta. A conclusão dos autores é a frase que devia estar afixada em todas as salas de creche: a maior parte das crianças começa a usar agressão física durante a infância precoce, e a maior parte aprende alternativas nos anos seguintes.

Ou seja: a pergunta útil não é “porque é que ele bate?”. É “o que é que ele ainda não tem para fazer em vez disso?”.

Porque é que a mão chega antes da palavra

A resposta mais provável está na linguagem.

Um estudo de Ginette Dionne, Richard Tremblay e colegas, publicado em 2003 na Developmental Psychology, olhou para gémeos de 19 meses e cruzou vocabulário expressivo com agressão física. Encontrou uma correlação modesta mas significativa entre as duas coisas — e a modelação genética apontou uma direcção: é o vocabulário que influencia a agressão, e não o contrário.

Faz sentido do ponto de vista prático. Uma criança de dois anos que quer um brinquedo que outra criança tem enfrenta um problema de negociação com as ferramentas de um bebé. Precisava de dizer “posso brincar quando acabares?”. O que tem disponível são vinte palavras, um sistema nervoso que ainda não trava sozinho, e um braço que resolve o assunto em meio segundo.

Somam-se dois factores. O córtex pré-frontal — a parte do cérebro responsável por travar um impulso antes de ele virar acção — é das últimas regiões a amadurecer, e nesta idade está a começar. E, como o Center on the Developing Child de Harvard descreve, a autorregulação constrói-se por empréstimo: a criança regula-se primeiro com um adulto calmo ao lado, e só depois sozinha.

Bater, nesta idade, não é uma escolha entre duas opções. É a única opção que apareceu a tempo.

O que está por trás, por idade

IdadeO que costuma estar por trásO que funciona
12-18 mesesExploração sensorial e dentição; morde sem noção de que dóiInterromper com calma, dar algo que se possa morder, nomear (“dói”)
18-30 mesesFrustração sem palavras; disputa de objectos; pico da curvaEmprestar palavras, antecipar disputas, supervisão próxima nas brincadeiras
2,5-3,5 anosTestar limites e efeito; cansaço acumuladoLimite firme e curto + ensaiar a alternativa noutro momento
4-5 anosJá tem linguagem: costuma ser sinal de sobrecarga, ciúme ou algo em mudançaProcurar a causa a montante; conversa fora do momento quente

Os primeiros 30 segundos

O que fazes imediatamente a seguir importa mais do que o discurso que der depois. Um guião curto, por esta ordem:

1. Separar, sem drama. Intervém fisicamente antes de falar: mão entre as duas crianças, corpo baixo, tom baixo. Se o teu tom sobe, ele aprende que este momento é grande — e o que é grande repete-se.

2. Atender primeiro a quem foi magoado. Contraintuitivo, mas é o passo com mais efeito. “Ai, doeu-te aqui. Vamos ver.” A criança que bateu observa que a atenção seguiu a dor, não o gesto. Isto ensina mais do que qualquer explicação.

3. Uma frase de limite. Uma só. “Não deixo bater. Bater dói.” Sem sermão, sem “porque é que fizeste isso?” — uma criança de dois anos não sabe a resposta e a pergunta só a leva a inventar ou a fechar-se.

4. Dar a palavra que faltava. “Querias o camião. Diz: é meu, quero eu.” Este é o passo que resolve o próximo episódio, não este. Estás a instalar a ferramenta que faltava.

E depois pára. Se ele estiver desregulado, nada do que disseres entra — a parte do cérebro que ouve argumentos está temporariamente fora de serviço. A conversa a sério faz-se meia hora depois, ou no dia seguinte, com os dois calmos.

O que agrava

Três coisas comuns, todas bem-intencionadas:

Morder ou bater de volta “para ele ver como dói”. O NHS é explícito a desaconselhar. A criança não retira daqui a lição da dor; retira a lição de que quem é maior pode bater. É exactamente o modelo que estás a tentar desinstalar.

Sermões longos. Aos dois anos, cada frase acrescentada depois da primeira reduz o efeito da primeira. E atenção prolongada — mesmo negativa — é atenção.

Envergonhar em público. “Vê lá o que fizeste, pede já desculpa.” O pedido de desculpa forçado ensina a fórmula, não a empatia. Funciona melhor pedires tu desculpa à outra criança à frente dele, e envolvê-lo na reparação: ir buscar gelo, dar um desenho, perguntar se já está melhor.

Prevenir: os três momentos de risco

Quase todos os episódios acontecem numa de três janelas, e todas são antecipáveis.

Fome e cansaço. A capacidade de travar impulsos é a primeira coisa a cair quando o corpo está em défice. Se os episódios se concentram entre as 18h e as 19h30, o problema pode ser a hora do lanche e a sesta que está a encurtar, não o comportamento.

Transições. Sair do parque, desligar o que estava a fazer, entrar no banho. Avisar dois minutos antes, com o corpo presente e não a gritar da cozinha, evita uma parte substancial das explosões.

Disputa de objecto com outra criança. Aos dois anos, partilhar ainda não está disponível como conceito. Em vez de esperar que corra bem e intervir no fim, fica por perto quando há um só brinquedo desejado por dois — e usa temporizadores, alternância anunciada ou um segundo objecto igual.

Quando deixa de ser desenvolvimento e passa a ser sinal

A American Academy of Pediatrics dá critérios úteis para falar com o pediatra ou com a linha SNS 24 (808 24 24 24):

  • os episódios mantêm-se várias semanas seguidas, sem um mês limpo;
  • há ferimentos, na criança ou nos outros;
  • ataca adultos com frequência;
  • começa a ser excluída de grupos, festas ou da sala;
  • ou sentes, de forma consistente, que não consegues garantir segurança.

Fora destes casos, o padrão esperado é o da curva: aumenta até por volta dos três anos, e depois desce — mais depressa se a criança tiver linguagem para negociar e adultos calmos a mostrar como se faz.

Perguntas frequentes

Ele só morde na creche, em casa nunca. Comum, e não é contradição. A creche tem mais concorrência por objectos, mais estímulo e menos adulto por criança. Vale a pena pedir à educadora o mapa das horas em que acontece — quase sempre há um padrão de hora ou de contexto.

Bate-me a mim, na cara, e ri-se. O riso raramente é gozo; é descarga de tensão ou surpresa com a reacção. Segura-lhe a mão com firmeza e diz “não deixo”, sem sorrir e sem representar dor exagerada. E baixa a estimulação — este comportamento aparece muitas vezes no fim de dias longos.

Devo obrigá-lo a pedir desculpa? Aos dois anos, não vale grande coisa. Reparar vale mais do que verbalizar: ajudar quem foi magoado, ir buscar uma coisa, ficar por perto. A desculpa dita com intenção aparece por volta dos 4 anos, se a viu ser feita em casa.

Tenho outro bebé em casa e ele começou agora. A chegada de um irmão é um dos factores mais associados a um pico de agressão nesta idade. Não se resolve com mais disciplina — resolve-se com tempo a dois, previsível e curto, todos os dias.


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Fontes: Alink, L. et al. (2006), Child DevelopmentThe early childhood aggression curve: development of physical aggression in 10- to 50-month-old children · Tremblay, R. E. et al. (2004), PediatricsPhysical aggression during early childhood: trajectories and predictors · Dionne, G., Tremblay, R. E. et al. (2003), Developmental PsychologyPhysical aggression and expressive vocabulary in 19-month-old twins · American Academy of Pediatrics — Aggressive Behavior in Toddlers (HealthyChildren.org) · NHS — Temper tantrums and aggressive behaviour · Center on the Developing Child, Universidade de Harvard — Executive Function & Self-Regulation · SNS 24 — 808 24 24 24

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