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Boas Maneiras para Crianças: 15 Regras que se Ensinam pelo Exemplo (e a Idade Certa para Cada Uma)

Boas maneiras para crianças: como ensinar pelo exemplo, o que esperar aos 2, 3, 4 e 5 anos, 15 regras com o passo concreto e o que fazer quando falha em público.

· Nuno Simões

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Ensinam-se boas maneiras às crianças pelo exemplo e pela repetição, não pela ordem: uma criança de 3 anos que ouve os pais dizer “obrigado” cinquenta vezes por dia acaba por dizê-lo sozinha; uma que é mandada dizer “obrigado” cinquenta vezes por dia aprende a resmungar. O que se pode esperar depende da idade — aos 2 anos são sementes, aos 4 é aplicar com lembrete, aos 6 é fazer sozinha em situações conhecidas. E quando falha em público, corrige-se em voz baixa e conversa-se depois, em casa.

Uma nota sobre as palavras. Em Portugal diz-se se faz favor e com licença; no Brasil, por favor e dá licença. Chamam-se boas maneiras dos dois lados.

Porque é que o “diz obrigado” forçado não ensina nada

Todos os pais já disseram “e agora, o que é que se diz?” à frente de alguém. E todos já viram o resultado: um “obrigado” mastigado, olhos no chão, sem nenhuma relação com gratidão. A criança aprendeu a fazer o adulto calar-se, não a agradecer.

Isto acontece porque, até aos 5 ou 6 anos, a criança aprende sobretudo por imitação. Copia o que vê fazer às pessoas de quem gosta, muito antes de perceber porque é que o fazem. Uma instrução (“diz obrigado”) pede-lhe uma coisa que ainda não sente; um modelo (o pai a dizer “obrigado” à empregada do café, a olhar para ela) mostra-lhe uma coisa que pode copiar.

A alternativa tem três passos, e resulta a partir dos 18 meses:

  • Fazer à frente dela, todos os dias. Agradecer ao outro adulto em casa. Pedir “se faz favor” ao filho quando lhe pede o brinquedo. Dizer “desculpa” quando se pisa o pé dele. A criança repara em tudo.
  • Dizer por ela, sem exigir que repita. Quando a avó lhe dá a bolacha e ela fica calada, o adulto diz “obrigada, avó” em voz normal, e seguem. Não é “diz obrigada”. É o adulto a mostrar a frase no sítio certo. Ao fim de semanas, ela começa a dizê-la antes do adulto.
  • Reparar quando acerta. “Gostei de te ouvir dizer obrigado ao senhor.” Concreto, curto, sem prémio. O que se repara, repete-se.

E uma coisa que se deixa de fazer: comentar cada deslize. Transformar cada gesto em lição cansa e tira naturalidade. Escolher os momentos e deixar passar o resto mantém o ensino leve — e a criança disponível para o receber.

O que é razoável esperar em cada idade

O erro mais comum não é exigir de menos; é exigir cedo de mais. A criança de 2 anos que diz “obrigado” hoje e não diz amanhã não está a desafiar ninguém.

IdadeO que consegueO que ainda não consegue
2 anosImitar “olá” e “adeus” com gesto; dizer “obrigado” às vezes, quando lembrada; sentar-se para comer durante 10 minutosEsperar a vez; partilhar de forma voluntária; controlar o tom de voz; lembrar-se da regra de um dia para o outro
3 anosDizer “obrigado” e “se faz favor” com lembrete suave; cumprimentar quem conhece; ficar à mesa 15-20 minutos; pedir desculpa quando o adulto explica o que aconteceuNão interromper; partilhar o brinquedo preferido; comportar-se de forma diferente em casa e fora
4 anosDizer as palavras de cortesia sozinha em situações conhecidas; esperar a vez em jogos curtos; comer de boca fechada com lembrete; pedir em vez de agarrarManter as maneiras quando está cansada ou com fome; perceber o que é rude para os outros (comentar a aparência de alguém, por exemplo)
5-6 anosAplicar sozinha em situações novas; usar “com licença” para interromper; perceber que há regras diferentes em casa dos outros; reparar sem ser mandadaConsistência total; ironia e subtileza; controlar-se depois de um dia longo

Se a criança está claramente abaixo desta tabela e também não responde a pedidos simples noutros contextos, o problema pode não ser de maneiras — veja o que fazer quando a criança não obedece, porque a base é a mesma.

As 15 boas maneiras, com o “como” concreto

Uma de cada vez. Escolha a que mais falta faz, trabalhe-a duas ou três semanas, e só depois passe à seguinte.

  1. Cumprimentar e despedir-se. A partir dos 2 anos, com gesto. O adulto cumprimenta primeiro, à frente dela, e não a obriga a dar beijos: “podes dizer olá ou dar um aceno”. Antes de chegar, avisa quem vai estar.
  2. Dizer obrigado. A partir dos 2 anos, com lembrete até aos 4. O adulto diz por ela quando ela não diz, sem comentar. A gratidão vem depois da palavra, não antes.
  3. Pedir “se faz favor”. Aos 3 anos. Quando ela exige (“dá!”), o adulto repete o pedido na forma certa (“dás-me a água, se faz favor?”) e cumpre. Não se recusa a água por falta da fórmula — ensina-se a fórmula e dá-se a água.
  4. Esperar a vez. Aos 3 anos em jogos curtos, aos 4 em conversas. Jogos de tabuleiro simples e “primeiro tu, depois eu” na cozinha treinam-no mais depressa do que qualquer explicação.
  5. Não interromper. A partir dos 4 anos, com uma técnica: ela põe a mão no braço do adulto quando quer falar; o adulto põe a mão em cima da dela para dizer “já vi, já vou” e acaba a frase. Uma frase, não cinco minutos. Antes dos 4, esperar mais de dez segundos não é realista.
  6. À mesa. Aos 2 anos, sentar-se enquanto come. Aos 3, esperar que os outros se sentem e dizer “não gosto” em vez de “que nojo”. Aos 4, boca fechada e pedir em vez de agarrar. Aos 5-6, guardanapo, pedir para sair e levar o prato. Ecrãs fora da mesa — os dos pais também.
  7. Pedir em vez de exigir. Aos 3 anos. O grito não é respondido; o pedido normal é. “Não te ouço quando gritas. Pede outra vez.” E responder de imediato quando pede bem.
  8. Pedir desculpa a sério. Aos 3 anos, com ajuda; sozinha aos 5. Um “desculpa” mandado não repara nada. O que repara é a acção: buscar gelo para o joelho do amigo, ajudar a reconstruir a torre. Pergunte “o que podes fazer para ele ficar melhor?” em vez de “pede desculpa”.
  9. Partilhar. Não antes dos 3 anos, e mesmo aí com limites: pode ter dois ou três brinquedos que não partilha, guardados antes das visitas. O resto é “a tua vez, depois a dele”. Há um artigo inteiro sobre a criança que não quer partilhar.
  10. Respeitar o “não” dos outros. Aos 3 anos. Se o irmão diz “pára”, pára-se. Se o amigo não quer emprestar, não se tira. Vale nos dois sentidos: os pais também param as cócegas quando ela diz “pára”. É assim que aprende que o “não” conta — o dela e o dos outros.
  11. Cuidar das coisas. Aos 3 anos. As coisas dos outros tratam-se melhor do que as nossas. O que se estraga, ajuda-se a arranjar ou a limpar. Sem drama, sem castigo: consequência e ajuda.
  12. Arrumar o que usou. Aos 2 anos com o adulto, aos 4 sozinha. “Antes do jantar, os carros vão para a caixa.” Uma canção sempre igual para arrumar vale mais do que dez avisos.
  13. Telefone e ecrãs. Aos 4 anos. Não se fala alto quando alguém está ao telefone; não se mexe no telemóvel dos outros; o tablet não vai para a mesa nem para casa dos outros sem pedir. E o adulto pousa o telemóvel quando ela lhe fala — é a regra mais copiada de todas.
  14. Em casa dos outros. Aos 4 anos. Antes de entrar, três regras ditas no carro: pergunta-se antes de mexer, não se abrem gavetas nem portas fechadas, come-se o que há sem comentar. À saída, “obrigado pelo convite” — dito pelo adulto primeiro.
  15. Não comentar as pessoas à frente delas. Aos 4-5 anos. “Aquela senhora é gorda” não é maldade, é observação. Resposta calma, baixa: “as pessoas são todas diferentes; isso falamos em casa”. E em casa fala-se mesmo, sem ralhar — é aí que aprende o que magoa.

Se quiser todo o método de fundo — o que dizer e fazer no momento em que a criança testa a regra, sem gritos nem sermões — está no Educar com Amor.

Quando não cumpre em público (sem humilhar)

O momento em que a criança é rude à frente da sogra ou no restaurante é o momento em que os pais mais querem mostrar que educam. E é exactamente aí que se erra: a correcção em público serve para a plateia, não para a criança.

O que fazer, por ordem:

  • Baixar-se e falar baixo. Ao nível dos olhos dela, uma frase: “isso magoa, não se diz”. Sem a versão longa.
  • Dizer a frase certa por ela. Se não cumprimentou, o adulto diz “olá, tia” em voz normal e continua a conversa. Se atirou o brinquedo, “o Tomás não gosta, vamos devolver” — e devolve-se com ela.
  • Sair, se estiver descontrolada. Sem discurso, sem ameaça. “Vamos ali fora um bocadinho.” Volta-se quando estiver calma. Não é castigo, é ajuda a regular.
  • Não pedir desculpa por ela à plateia. “Desculpem, ele é assim” ensina-lhe que é assim.
  • Conversar depois, em casa. Quando ambos estão calmos, duas ou três frases sobre o que aconteceu e o que fazer da próxima vez. Aos 4 anos é possível; aos 2, é só voltar a modelar.

Se as falhas em público são constantes e vêm com birras grandes, o problema raramente é de maneiras. É de limites ou de cansaço. Vale a pena rever como impor limites às crianças e os princípios da disciplina positiva sem castigos antes de apertar as regras de cortesia.

O caso especial da criança tímida

A criança tímida sabe perfeitamente o que se espera dela. O que lhe falta não é a regra — é tempo. Empurrá-la para o “diz olá à senhora” produz um bloqueio, olhos no chão, e um adulto envergonhado que insiste mais. Fica pior de cada vez.

O que resulta:

  • Não a apresentar como tímida. “Ela é envergonhada” dito à frente dela torna-se identidade. Diga antes “ela precisa de um bocadinho para aquecer”.
  • Aceitar a versão pequena. Um aceno em vez de um olá. Sussurrar o “obrigado” ao ouvido do pai, que o repete alto. Está a cumprir a regra ao tamanho que consegue.
  • Dar cinco minutos. Chegar a casa dos outros e não exigir nada nos primeiros minutos. A maior parte das crianças tímidas cumprimenta sozinha — quando já ninguém espera.
  • Treinar em casa, a brincar. Bonecos que chegam a uma festa e dizem olá. A criança dá a voz ao boneco com muito mais facilidade do que dá a sua.
  • Ficar ao lado, não à frente. O adulto cumprimenta, mantém a mão nas costas dela e não olha para ela à espera. A pressão do olhar é a maior parte do problema.

Há mais estratégias para o resto do dia em criança tímida: o que fazer, e o guia de comportamento e emoções reúne tudo o que se cruza com este tema.

Escolha hoje uma das 15. Faça-a à frente dela durante uma semana, sem lhe pedir nada. Na segunda semana, diga a frase por ela quando ela não diz. Na terceira, repare em voz alta quando acerta. Ao fim de um mês passa à seguinte — e a primeira já não precisa de si.


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Fontes: American Academy of Pediatrics, HealthyChildren.org — Family Life: Family Dynamicshealthychildren.org · Zero to Three, Social-emotional developmentzerotothree.org · Harvard Center on the Developing Child, Executive Function & Self-Regulationdevelopingchild.harvard.edu · NHS, Help your child’s social developmentnhs.uk · DGS, Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenildgs.pt

Relacionado: Limites às crianças: como impor | Criança tímida: o que fazer | Guia: Comportamento e emoções


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Perguntas frequentes

Como ensinar boas maneiras às crianças?

Pelo exemplo, com repetição e sem sermão. A criança copia o que vê os pais fazerem mil vezes mais depressa do que decora o que lhe mandam dizer. Agradeça à frente dela, diga a frase por ela quando ela não diz (sem a obrigar a repetir), elogie de forma concreta quando acerta e corrija em privado quando falha. Uma regra de cada vez, durante semanas, não quinze ao mesmo tempo.

Com que idade a criança deve dizer obrigado e por favor?

Aos 2 anos diz às vezes, quando lembrada, e esquece-se no dia seguinte — é normal. Aos 3 já diz com um lembrete suave na maior parte das vezes. Aos 4-5 diz sozinha em situações conhecidas e ainda precisa de ajuda em situações novas. A consistência real só se espera por volta dos 6 anos, e mesmo aí falha quando está cansada.

Quais são as regras de educação à mesa para crianças?

Por ordem de idade: sentar-se enquanto come (2 anos); esperar que os outros se sentem antes de começar e dizer 'não gosto' em vez de 'que nojo' (3 anos); comer de boca fechada, pedir em vez de agarrar, ficar à mesa até o adulto dar por terminado (4 anos); usar o guardanapo, pedir para sair e levar o prato (5-6 anos). Ecrãs fora da mesa, também os dos pais.

O que fazer quando a criança é mal-educada em público?

Não humilhar. Baixar-se ao nível dela, uma frase curta e em voz baixa ('isso magoa, não se diz'), dizer a frase certa por ela se for preciso, e seguir. Se está descontrolada, sair do sítio com ela sem discurso. A conversa a sério é depois, em casa, quando ambos estão calmos. Ralhar à frente de outros ensina a temer o julgamento, não a considerar as pessoas.

Devo obrigar o meu filho a cumprimentar as pessoas?

Não, e menos ainda a dar beijos. Obrigar a cumprimentar produz um resmungo de olhos no chão e ensina que o corpo dela não é dela. O que resulta: avisar antes de chegar quem vai estar, oferecer alternativas (um aceno, um olá, um 'toca aqui'), cumprimentar o adulto à frente dela para ela ver como se faz, e dar-lhe cinco minutos de aquecimento antes de esperar alguma coisa.

Como ensinar boas maneiras a uma criança tímida?

Reduzindo a exigência, não a regra. A criança tímida sabe o que se espera; o que lhe falta é tempo para aquecer. Não a apresente como tímida à frente dela, não a force a falar, aceite versões mais pequenas (aceno em vez de olá, sussurrar-lhe ao ouvido o obrigado que o adulto repete alto) e treine em casa com bonecos. A regra mantém-se; o prazo é mais longo.

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