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Reflexos do Recém-Nascido: Quais São e Quando Desaparecem

Reflexos do recém-nascido: quais são, para que servem e quando desaparecem — e porque o desaparecimento importa tanto como o aparecimento à nascença.

· Nuno Simões

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Os reflexos primitivos são respostas motoras automáticas com que o bebé nasce, comandadas pelo tronco cerebral e não pela vontade. Servem para sobreviver nas primeiras semanas — mamar, agarrar, proteger-se — e são avaliados em todas as consultas dos primeiros meses. Quase todos desaparecem entre os 2 e os 6 meses; alguns só no fim do primeiro ano. O desaparecimento na altura certa é tão importante como a presença à nascença.

O que é um reflexo primitivo

Um reflexo primitivo é um padrão de movimento fixo, sempre igual, desencadeado por um estímulo específico, que não passa pelo córtex cerebral. O bebé não decide fazê-lo — o corpo faz.

Muitos destes reflexos já estão presentes antes do nascimento: a sucção e a deglutição aparecem por volta das 32-36 semanas de gestação, o que é uma das razões pelas quais um bebé muito prematuro tem dificuldade em mamar. À nascença, um bebé de termo saudável tem-nos todos.

À medida que o cérebro amadurece — as vias nervosas ganham mielina, o córtex ganha peso — estes automatismos vão sendo inibidos, ou “integrados”. O que fica no lugar deles é movimento voluntário: agarrar porque quero, largar porque quero, virar a cabeça porque me interessa. É por isso que o pediatra os procura e depois procura a ausência deles.

Os principais reflexos, um a um

Moro (sobressalto)

Como se vê: um som forte, uma mudança brusca de posição ou a sensação de estar a cair — e o bebé abre os braços em cruz, abre as mãos, estica as pernas, e logo a seguir recolhe os braços sobre o peito. Muitas vezes chora a seguir. Para que serve: é o reflexo de agarrar-se, herdado da necessidade de não cair da mãe que o transportava. Quando: presente à nascença. Desaparece entre os 3 e os 6 meses.

Sucção

Como se vê: qualquer coisa que toque no palato do bebé desencadeia sucção rítmica — mama, dedo, chupeta. Para que serve: alimentar-se. Sem ele não há amamentação. Quando: presente à nascença (e antes). Torna-se progressivamente voluntário entre os 2 e os 4 meses, e o componente reflexo apaga-se por volta dos 4-6 meses. A partir daí o bebé mama porque quer, não porque tem de mamar.

Procura (pontos cardeais)

Como se vê: ao tocar-lhe ao canto da boca ou na bochecha, o bebé roda a cabeça para esse lado e abre a boca à procura. Para que serve: encontrar a mama. É o reflexo que faz o recém-nascido “atacar” a face de quem o pega ao colo — o que muitas vezes é lido como fome quando é apenas reflexo. Quando: presente à nascença. Desaparece por volta dos 4 meses. Se lhe interessa o tema, veja também as dicas de amamentação nas primeiras semanas.

Preensão palmar

Como se vê: pressione a palma da mão do bebé e os dedos fecham-se à volta do seu dedo, com uma força surpreendente. Para que serve: o mesmo princípio do Moro — agarrar-se. Quando: presente à nascença. Desaparece entre os 3 e os 6 meses — e tem mesmo de desaparecer, porque enquanto existir o bebé não consegue largar um objecto de propósito. Agarrar voluntariamente aparece por volta dos 4 meses; largar voluntariamente, mais perto dos 6-8.

Preensão plantar

Como se vê: pressão na planta do pé, logo abaixo dos dedos, e os dedos curvam-se para baixo. Quando: presente à nascença. Desaparece entre os 9 e os 12 meses — mais tarde do que a palmar, porque só precisa de sair do caminho quando o pé passa a servir para suportar peso e andar.

Marcha automática

Como se vê: segurando o bebé na vertical, com os pés a tocar numa superfície firme, ele alterna as pernas como se andasse. Para que serve: provavelmente ajuda na progressão durante o parto e a encontrar a mama nas primeiras horas. Quando: presente à nascença. Desaparece por volta dos 2 meses. Não tem relação nenhuma com a idade em que a criança vai andar — vale a pena dizê-lo porque é um dos mal-entendidos mais comuns entre avós e pais de primeira viagem.

Tónico-cervical assimétrico (o “esgrimista”)

Como se vê: com o bebé deitado de costas, roda-se a cabeça para um lado; o braço e a perna desse lado esticam, e o braço do lado oposto flecte. Fica na posição de um esgrimista. Para que serve: organiza a relação entre o olhar e a mão — o bebé olha para a mão que está esticada, e é assim que descobre que aquela mão é dele. Quando: mais evidente por volta dos 1 aos 3 meses. Desaparece entre os 4 e os 6 meses. Tem de sair para o bebé poder juntar as mãos na linha média, levá-las à boca e rolar em bloco.

Cutâneo-plantar (Babinski)

Como se vê: ao passar um objecto rombo pela borda externa da planta do pé, o dedo grande estica para cima e os outros abrem-se em leque. Quando: presente à nascença. Desaparece tipicamente entre os 12 e os 24 meses, à medida que as vias motoras ganham mielina. Num bebé é normal; num adulto seria um sinal neurológico.

Porque é que o desaparecimento importa tanto

Esta é a parte que raramente se explica aos pais, e é a mais útil.

Cada reflexo primitivo ocupa o lugar de um movimento voluntário que vem a seguir. Enquanto a mão se fecha automaticamente, não pode agarrar de propósito. Enquanto o corpo se organiza em torno da posição da cabeça, as duas mãos não se encontram ao centro. Enquanto o Moro dispara a cada movimento, é difícil manter uma posição estável para explorar.

Por isso, o mapa do desenvolvimento dos primeiros meses lê-se assim:

  • Moro sai → o bebé sossega, dorme com menos sobressaltos, aguenta ser pousado
  • Tónico-cervical sai → mãos juntam-se ao centro, vão à boca, o bebé rola em bloco
  • Preensão palmar sai → aparece o agarrar e, depois, o largar deliberado
  • Sucção reflexa sai → aparece a sucção voluntária e, mais tarde, a introdução alimentar
  • Preensão plantar sai → o pé fica disponível para suportar peso

Um reflexo que persiste muito para além da idade esperada sugere que a maturação cortical não está a avançar como esperado. Um reflexo que reaparece depois de ter desaparecido é ainda mais significativo. E um reflexo assimétrico — que só acontece de um lado — pode apontar para um problema local: uma fractura da clavícula no parto, uma lesão do plexo braquial, ou uma diferença de tónus entre os dois lados.

Nota importante para pais de bebés prematuros: tudo isto se conta pela idade corrigida, não pela data de nascimento. Um bebé nascido às 30 semanas com 5 meses de vida tem cerca de 2,5 meses corrigidos — e é essa a referência.

O que os pais notam em casa

O sobressalto que acorda o bebé. É o Moro, e é a causa número um de “ele adormece ao colo e acorda assim que o pouso”. A descida horizontal dispara a sensação de queda. O que ajuda: pousar de lado e só depois rodar para as costas, manter as mãos no bebé alguns segundos depois de o pousar, e — nos primeiros meses, antes de haver qualquer sinal de rolar — envolvê-lo bem num pano. Assim que aparecem os primeiros sinais de rolar, o envolver acaba e passa-se a saco de dormir com braços livres.

A mão sempre fechada. É a preensão palmar. Nos primeiros dois a três meses o bebé anda de punhos cerrados quase todo o tempo. A partir dos 3 meses as mãos abrem-se cada vez mais e começam a ir à boca — e é aí que arranca a exploração a sério.

O “andar” quando se segura de pé. Marcha automática. Diverte muito e não significa nada quanto à idade de andar. Também não deve ser transformado em treino: não há vantagem nenhuma em pôr um recém-nascido a “andar” e o peso não deve ser suportado pelas pernas nesta fase.

A cabeça a virar-se para a mão que lhe toca a cara. Reflexo de procura. Faz muitos pais concluírem que o bebé tem fome quando na verdade acabou de mamar — o reflexo dispara com qualquer toque, não só com fome.

A força com que agarra o cabelo, os brincos e a roupa. Preensão palmar outra vez. E não é vontade de magoar: ele literalmente ainda não sabe largar.

O que é normal e o que merece avaliação

Normal:

  • Reflexos mais fortes nuns dias do que noutros, consoante o bebé está descansado ou irritado
  • Moro muito marcado nas primeiras semanas e a diminuir gradualmente a partir dos 2 meses
  • Um bebé sonolento com reflexos pouco vivos naquele momento — repete-se acordado
  • Sobreposição: durante semanas, o mesmo movimento aparece ora reflexo, ora voluntário

Merece avaliação:

  • Ausência de um reflexo esperado à nascença ou nas primeiras semanas
  • Assimetria: um Moro em que só um braço abre; preensão claramente mais fraca de um lado; um braço que se mexe menos
  • Persistência: Moro depois dos 6 meses, tónico-cervical marcado depois dos 6 meses, preensão palmar depois dos 6 meses, mãos sempre em punho com o polegar preso depois dos 3-4 meses
  • Reaparecimento de um reflexo já desaparecido
  • Reflexos exagerados, acompanhados de tremores mantidos, rigidez ou corpo muito mole
  • Dificuldade persistente em mamar por sucção fraca ou descoordenada

Nada disto se avalia por leitura de listas: um reflexo pode parecer ausente em casa e estar perfeitamente presente na consulta, com o bebé acordado e no estado certo. É exactamente para isso que existem as consultas de vigilância nos primeiros meses — o pediatra faz este exame de rotina, sem precisar que os pais peçam, e o que se compara é a evolução entre consultas, não um momento isolado. Se quiser situar isto no resto do primeiro ano, veja os marcos de desenvolvimento dos 0 aos 12 meses.

Este artigo é informativo e não substitui a avaliação do seu médico.


Veja também: Marcos de desenvolvimento dos 0 aos 12 meses | Consultas de vigilância do bebé: calendário


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Perguntas frequentes

Quais são os principais reflexos do recém-nascido?

Os mais avaliados são o reflexo de Moro (sobressalto), a sucção, a procura (pontos cardeais), a preensão palmar, a preensão plantar, a marcha automática, o reflexo tónico-cervical assimétrico e o reflexo cutâneo-plantar de Babinski. Todos estão presentes à nascença num bebé de termo saudável e desaparecem em alturas diferentes do primeiro ano.

Quando desaparece o reflexo de Moro?

O reflexo de Moro, ou reflexo de sobressalto, costuma desaparecer entre os 3 e os 6 meses. É o reflexo em que o bebé, perante um som forte ou a sensação de estar a cair, abre bruscamente os braços, abre as mãos e depois fecha-os sobre o peito, muitas vezes a chorar. É este que acorda tantos bebés durante o sono.

Porque é que os reflexos primitivos têm de desaparecer?

Porque ocupam o lugar dos movimentos voluntários. Enquanto a preensão palmar existir, o bebé não consegue largar um objecto de propósito; enquanto o reflexo tónico-cervical for forte, não consegue juntar as mãos na linha média. O desaparecimento é o sinal de que o córtex está a assumir o controlo e é tão informativo como o aparecimento.

O meu bebé faz movimentos de andar quando o seguro em pé. Significa que vai andar cedo?

Não. É a marcha automática, um reflexo presente à nascença que desaparece por volta dos 2 meses e não tem qualquer relação com a idade em que a criança vai andar. Andar a sério, por volta dos 12-15 meses, depende de equilíbrio, força e controlo do tronco, e é uma competência completamente diferente.

É normal o meu bebé andar sempre de mãos fechadas?

Nos primeiros dois a três meses, sim: é a preensão palmar. A partir dos 3 meses as mãos devem começar a abrir-se espontaneamente cada vez mais tempo. Mãos permanentemente fechadas em punho depois dos 3-4 meses, com o polegar preso por dentro dos dedos, ou uma mão sempre mais fechada que a outra, merecem avaliação.

Quando é que os reflexos do bebé devem preocupar os pais?

Quando faltam, quando são assimétricos e quando persistem. Um reflexo ausente à nascença, um Moro em que só um braço se abre, uma preensão claramente mais fraca de um lado, um reflexo que persiste muito para além da idade esperada ou um reflexo que reaparece depois de ter desaparecido são todos motivo para avaliação.

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Compilação de princípios fundamentais sobre o brincar que aplico há 20 anos de trabalho com crianças. O que ninguém te ensina em livros mas faz a diferença.