Os reflexos primitivos são respostas motoras automáticas com que o bebé nasce, comandadas pelo tronco cerebral e não pela vontade. Servem para sobreviver nas primeiras semanas — mamar, agarrar, proteger-se — e são avaliados em todas as consultas dos primeiros meses. Quase todos desaparecem entre os 2 e os 6 meses; alguns só no fim do primeiro ano. O desaparecimento na altura certa é tão importante como a presença à nascença.
O que é um reflexo primitivo
Um reflexo primitivo é um padrão de movimento fixo, sempre igual, desencadeado por um estímulo específico, que não passa pelo córtex cerebral. O bebé não decide fazê-lo — o corpo faz.
Muitos destes reflexos já estão presentes antes do nascimento: a sucção e a deglutição aparecem por volta das 32-36 semanas de gestação, o que é uma das razões pelas quais um bebé muito prematuro tem dificuldade em mamar. À nascença, um bebé de termo saudável tem-nos todos.
À medida que o cérebro amadurece — as vias nervosas ganham mielina, o córtex ganha peso — estes automatismos vão sendo inibidos, ou “integrados”. O que fica no lugar deles é movimento voluntário: agarrar porque quero, largar porque quero, virar a cabeça porque me interessa. É por isso que o pediatra os procura e depois procura a ausência deles.
Os principais reflexos, um a um
Moro (sobressalto)
Como se vê: um som forte, uma mudança brusca de posição ou a sensação de estar a cair — e o bebé abre os braços em cruz, abre as mãos, estica as pernas, e logo a seguir recolhe os braços sobre o peito. Muitas vezes chora a seguir. Para que serve: é o reflexo de agarrar-se, herdado da necessidade de não cair da mãe que o transportava. Quando: presente à nascença. Desaparece entre os 3 e os 6 meses.
Sucção
Como se vê: qualquer coisa que toque no palato do bebé desencadeia sucção rítmica — mama, dedo, chupeta. Para que serve: alimentar-se. Sem ele não há amamentação. Quando: presente à nascença (e antes). Torna-se progressivamente voluntário entre os 2 e os 4 meses, e o componente reflexo apaga-se por volta dos 4-6 meses. A partir daí o bebé mama porque quer, não porque tem de mamar.
Procura (pontos cardeais)
Como se vê: ao tocar-lhe ao canto da boca ou na bochecha, o bebé roda a cabeça para esse lado e abre a boca à procura. Para que serve: encontrar a mama. É o reflexo que faz o recém-nascido “atacar” a face de quem o pega ao colo — o que muitas vezes é lido como fome quando é apenas reflexo. Quando: presente à nascença. Desaparece por volta dos 4 meses. Se lhe interessa o tema, veja também as dicas de amamentação nas primeiras semanas.
Preensão palmar
Como se vê: pressione a palma da mão do bebé e os dedos fecham-se à volta do seu dedo, com uma força surpreendente. Para que serve: o mesmo princípio do Moro — agarrar-se. Quando: presente à nascença. Desaparece entre os 3 e os 6 meses — e tem mesmo de desaparecer, porque enquanto existir o bebé não consegue largar um objecto de propósito. Agarrar voluntariamente aparece por volta dos 4 meses; largar voluntariamente, mais perto dos 6-8.
Preensão plantar
Como se vê: pressão na planta do pé, logo abaixo dos dedos, e os dedos curvam-se para baixo. Quando: presente à nascença. Desaparece entre os 9 e os 12 meses — mais tarde do que a palmar, porque só precisa de sair do caminho quando o pé passa a servir para suportar peso e andar.
Marcha automática
Como se vê: segurando o bebé na vertical, com os pés a tocar numa superfície firme, ele alterna as pernas como se andasse. Para que serve: provavelmente ajuda na progressão durante o parto e a encontrar a mama nas primeiras horas. Quando: presente à nascença. Desaparece por volta dos 2 meses. Não tem relação nenhuma com a idade em que a criança vai andar — vale a pena dizê-lo porque é um dos mal-entendidos mais comuns entre avós e pais de primeira viagem.
Tónico-cervical assimétrico (o “esgrimista”)
Como se vê: com o bebé deitado de costas, roda-se a cabeça para um lado; o braço e a perna desse lado esticam, e o braço do lado oposto flecte. Fica na posição de um esgrimista. Para que serve: organiza a relação entre o olhar e a mão — o bebé olha para a mão que está esticada, e é assim que descobre que aquela mão é dele. Quando: mais evidente por volta dos 1 aos 3 meses. Desaparece entre os 4 e os 6 meses. Tem de sair para o bebé poder juntar as mãos na linha média, levá-las à boca e rolar em bloco.
Cutâneo-plantar (Babinski)
Como se vê: ao passar um objecto rombo pela borda externa da planta do pé, o dedo grande estica para cima e os outros abrem-se em leque. Quando: presente à nascença. Desaparece tipicamente entre os 12 e os 24 meses, à medida que as vias motoras ganham mielina. Num bebé é normal; num adulto seria um sinal neurológico.
Porque é que o desaparecimento importa tanto
Esta é a parte que raramente se explica aos pais, e é a mais útil.
Cada reflexo primitivo ocupa o lugar de um movimento voluntário que vem a seguir. Enquanto a mão se fecha automaticamente, não pode agarrar de propósito. Enquanto o corpo se organiza em torno da posição da cabeça, as duas mãos não se encontram ao centro. Enquanto o Moro dispara a cada movimento, é difícil manter uma posição estável para explorar.
Por isso, o mapa do desenvolvimento dos primeiros meses lê-se assim:
- Moro sai → o bebé sossega, dorme com menos sobressaltos, aguenta ser pousado
- Tónico-cervical sai → mãos juntam-se ao centro, vão à boca, o bebé rola em bloco
- Preensão palmar sai → aparece o agarrar e, depois, o largar deliberado
- Sucção reflexa sai → aparece a sucção voluntária e, mais tarde, a introdução alimentar
- Preensão plantar sai → o pé fica disponível para suportar peso
Um reflexo que persiste muito para além da idade esperada sugere que a maturação cortical não está a avançar como esperado. Um reflexo que reaparece depois de ter desaparecido é ainda mais significativo. E um reflexo assimétrico — que só acontece de um lado — pode apontar para um problema local: uma fractura da clavícula no parto, uma lesão do plexo braquial, ou uma diferença de tónus entre os dois lados.
Nota importante para pais de bebés prematuros: tudo isto se conta pela idade corrigida, não pela data de nascimento. Um bebé nascido às 30 semanas com 5 meses de vida tem cerca de 2,5 meses corrigidos — e é essa a referência.
O que os pais notam em casa
O sobressalto que acorda o bebé. É o Moro, e é a causa número um de “ele adormece ao colo e acorda assim que o pouso”. A descida horizontal dispara a sensação de queda. O que ajuda: pousar de lado e só depois rodar para as costas, manter as mãos no bebé alguns segundos depois de o pousar, e — nos primeiros meses, antes de haver qualquer sinal de rolar — envolvê-lo bem num pano. Assim que aparecem os primeiros sinais de rolar, o envolver acaba e passa-se a saco de dormir com braços livres.
A mão sempre fechada. É a preensão palmar. Nos primeiros dois a três meses o bebé anda de punhos cerrados quase todo o tempo. A partir dos 3 meses as mãos abrem-se cada vez mais e começam a ir à boca — e é aí que arranca a exploração a sério.
O “andar” quando se segura de pé. Marcha automática. Diverte muito e não significa nada quanto à idade de andar. Também não deve ser transformado em treino: não há vantagem nenhuma em pôr um recém-nascido a “andar” e o peso não deve ser suportado pelas pernas nesta fase.
A cabeça a virar-se para a mão que lhe toca a cara. Reflexo de procura. Faz muitos pais concluírem que o bebé tem fome quando na verdade acabou de mamar — o reflexo dispara com qualquer toque, não só com fome.
A força com que agarra o cabelo, os brincos e a roupa. Preensão palmar outra vez. E não é vontade de magoar: ele literalmente ainda não sabe largar.
O que é normal e o que merece avaliação
Normal:
- Reflexos mais fortes nuns dias do que noutros, consoante o bebé está descansado ou irritado
- Moro muito marcado nas primeiras semanas e a diminuir gradualmente a partir dos 2 meses
- Um bebé sonolento com reflexos pouco vivos naquele momento — repete-se acordado
- Sobreposição: durante semanas, o mesmo movimento aparece ora reflexo, ora voluntário
Merece avaliação:
- Ausência de um reflexo esperado à nascença ou nas primeiras semanas
- Assimetria: um Moro em que só um braço abre; preensão claramente mais fraca de um lado; um braço que se mexe menos
- Persistência: Moro depois dos 6 meses, tónico-cervical marcado depois dos 6 meses, preensão palmar depois dos 6 meses, mãos sempre em punho com o polegar preso depois dos 3-4 meses
- Reaparecimento de um reflexo já desaparecido
- Reflexos exagerados, acompanhados de tremores mantidos, rigidez ou corpo muito mole
- Dificuldade persistente em mamar por sucção fraca ou descoordenada
Nada disto se avalia por leitura de listas: um reflexo pode parecer ausente em casa e estar perfeitamente presente na consulta, com o bebé acordado e no estado certo. É exactamente para isso que existem as consultas de vigilância nos primeiros meses — o pediatra faz este exame de rotina, sem precisar que os pais peçam, e o que se compara é a evolução entre consultas, não um momento isolado. Se quiser situar isto no resto do primeiro ano, veja os marcos de desenvolvimento dos 0 aos 12 meses.
Este artigo é informativo e não substitui a avaliação do seu médico.
Veja também: Marcos de desenvolvimento dos 0 aos 12 meses | Consultas de vigilância do bebé: calendário
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