Uma garrafa de água vazia, um punhado de arroz e fita-cola. Cinco minutos depois há uma maraca, uma criança a abaná-la e uma casa bastante mais barulhenta. Fazer instrumentos musicais em casa é das actividades mais simples e mais completas que há: junta trabalhos manuais, ciência (porque é que soa diferente?), ritmo e muita brincadeira em família.
Este guia tem 12 instrumentos para fazer com material reciclado, organizados por dificuldade, com regras de segurança e ideias para os usar depois.
Música no dia-a-dia do bebé? Vê também música para bebés e a música no desenvolvimento infantil.
Fazer música juntos (e não só ouvir)
Um estudo de David Gerry, Andrea Unrau e Laurel Trainor, publicado na Developmental Science em 2012, acompanhou bebés de 6 meses durante seis meses. Metade frequentou aulas de música activas, em que pais e bebés cantavam, tocavam instrumentos de percussão e se mexiam juntos; a outra metade ouvia música enquanto brincava. No fim, os bebés do grupo activo mostravam mais gestos de comunicação (apontar, acenar), sorriam mais e reagiam mais cedo a padrões musicais.
É apenas um estudo e não prova que a música torna as crianças “mais inteligentes”. Mas sugere algo útil: o que conta é fazer música juntos, com o corpo e com o adulto, e não ter música a tocar em fundo.
Antes de começar: segurança
- Tudo o que tem grãos, arroz ou contas fica selado: tampa colada com cola forte e reforçada com fita-cola. Verifica antes de cada uso.
- Até aos 3 anos, nada de peças pequenas soltas (caricas, contas, botões) que a criança possa tirar. A APSI considera perigosas para esta idade peças menores de 3,2 cm.
- Elásticos só com crianças mais velhas e com supervisão.
- Volume: tachos e tampas ao ouvido, não. Toquem longe das caras.
- Brincar sempre com um adulto quando há objectos caseiros.
12 instrumentos para fazer em casa
Fáceis (a partir de 1 ano, o adulto faz e a criança toca)
- Maracas de garrafa: garrafa pequena de plástico com arroz, feijão ou massa. Testa conteúdos diferentes: soam diferente! Tampa colada.
- Maracas de ovos: dois ovos de plástico (ou embalagens de iogurte líquido) com arroz, tampas coladas e fita-cola à volta.
- Tambor de tacho: um tacho virado ao contrário e uma colher de pau. Zero preparação.
- Claves: duas colheres de pau, dois blocos de madeira ou dois tubos de cartão grossos para bater um no outro.
- Chocalho de pulso: guizos grandes cosidos a um elástico largo de tecido, só com supervisão.
Intermédios (2-4 anos, com ajuda)
- Pau de chuva: um tubo de cartão comprido (de papel de alumínio ou de embrulho), papel de alumínio enrolado em espiral lá dentro, um punhado de arroz ou lentilhas e as pontas bem tapadas com cartão e fita-cola. Virar devagar e ouvir a “chuva”.
- Tambor de lata: uma lata ou caixa redonda de cartão com um balão cortado e esticado por cima, preso com um elástico. Tocar com os dedos ou com um lápis de borracha.
- Pandeireta de pratos: dois pratos de papel agrafados à volta, com arroz lá dentro, e fitas coloridas coladas no rebordo.
- Castanholas de cartão: um rectângulo de cartão dobrado ao meio com uma tampa de garrafa colada em cada metade. Bater as tampas.
Mais elaborados (4-6 anos)
- Xilofone de copos: copos de vidro ou frascos iguais com quantidades diferentes de água. Tocar com uma colher. Quanto mais água, mais grave o som. Pequena experiência de física! (Vidro sempre com o adulto.)
- Guitarra de caixa: caixa de sapatos com um buraco na tampa e elásticos de espessuras diferentes esticados por cima. Os mais grossos soam mais grave.
- Flauta de palhinhas: palhinhas cortadas a comprimentos diferentes, coladas lado a lado com fita-cola. Soprar por cima.
E agora, como se toca?
O instrumento é só o princípio. Algumas brincadeiras para depois:
- Alto e baixinho: tocar forte, depois muito suave. Treina controlo.
- Rápido e devagar: acompanhar uma canção conhecida mudando o ritmo.
- Pára!: todos tocam e param quando a música pára. É a “dança da estátua” com instrumentos, e treina autocontrolo.
- Eco: o adulto toca um ritmo curto (tá-tá-tááá), a criança repete.
- Adivinha o instrumento: de olhos fechados, qual é que está a tocar?
- Concerto da família: um é o maestro, os outros seguem. Trocar de papel.
- Acompanhar canções: das de sempre, como “Brilha, brilha lá no céu”, às que usam na creche. Há ideias em canções de transição.
Para bebés, o jogo mais simples continua a ser o melhor: o adulto canta e agita a maraca, pára, olha para o bebé, e espera que ele faça alguma coisa. Depois repete. É uma conversa, só que com ritmo.
O que cada idade aproveita
| Idade | O que costuma fazer com instrumentos |
|---|---|
| 6-12 meses | Agitar uma maraca leve, bater duas coisas uma na outra (marco dos 9 meses), reagir a canções |
| 1-2 anos | Bater no tambor, dançar, pedir “outra vez” |
| 2-3 anos | Tocar alto/baixo, parar quando a música pára, ajudar a encher maracas |
| 4-6 anos | Repetir ritmos, construir instrumentos simples, perceber grave e agudo |
Em resumo
- Instrumentos caseiros são trabalhos manuais, ciência e música ao mesmo tempo.
- O que conta é fazer música juntos, activamente, e não música de fundo.
- Selar bem tudo o que tem grãos; nada de peças pequenas antes dos 3 anos.
- Depois de construir, brincar com o som: alto/baixo, rápido/devagar, pára!, eco.
Se gostas de perceber o porquê por trás das brincadeiras que resultam, o A brincar, a brincar… reúne os princípios do brincar de 20 anos de experiência em desenvolvimento infantil.
Fontes: Gerry D., Unrau A., Trainor L.J. (2012) — Active music classes in infancy enhance musical, communicative and social development, Developmental Science · Zubler J.M. et al. (2022) — Evidence-Informed Milestones for Developmental Surveillance Tools, Pediatrics (AAP/CDC) · APSI — Guia digital de segurança: brinquedos para menores de 3 anos.
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