O nariz entupido, a respiração ruidosa, a mamada interrompida a cada dez segundos, a noite em claro. A primeira constipação de um bebé assusta, e as seguintes (que vão ser muitas, sobretudo no primeiro inverno de creche) cansam.
A boa notícia é que a grande maioria das constipações passa sozinha e que as medidas que mais ajudam são simples e baratas. A menos boa é que há produtos muito vendidos que não ajudam e podem fazer mal. Este guia resume o que dizem a Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP) e a Direção-Geral da Saúde (DGS), e termina com os sinais que exigem um médico.
Este artigo é informação geral e não substitui a avaliação do pediatra, do médico de família ou do enfermeiro. Em qualquer dúvida, liga para o SNS 24: 808 24 24 24, disponível 24 horas por dia.
Porque é que os bebés se constipam tanto
A constipação (nasofaringite aguda) é uma infecção viral das vias respiratórias superiores, e é a causa mais frequente de tosse em idade pediátrica. Há centenas de vírus diferentes capazes de a provocar, e o sistema imunitário de um bebé ainda não conheceu quase nenhum. Por isso, é normal uma criança pequena ter várias constipações por ano, sobretudo entre o outono e a primavera e nos primeiros tempos de creche.
Os sintomas típicos: nariz entupido ou a pingar, espirros, tosse, às vezes febre baixa nos primeiros dias, mais irritabilidade e menos apetite. O bebé continua, no geral, bem-disposto entre as queixas.
Os bebés pequenos respiram sobretudo pelo nariz, e é por isso que um nariz entupido os incomoda tanto: dificulta mamar e dormir.
O que ajuda mesmo
1. Nariz limpo: soro fisiológico e aspiração suave
É a medida mais eficaz. Algumas gotas de soro fisiológico em cada narina fluidificam o muco; depois, se houver secreções acessíveis, aspira-as suavemente com um aspirador nasal próprio para bebés.
- Quando: antes das mamadas e antes de dormir, que é quando o nariz entupido mais incomoda.
- Como: bebé deitado de lado ou ligeiramente inclinado, soro numa narina de cada vez, com suavidade.
- Quanto: o necessário para dar conforto. Aspirar vezes de mais pode irritar a mucosa. O objectivo não é deixar o nariz completamente seco.
2. Mamadas mais curtas e mais frequentes
Com o nariz entupido, o bebé cansa-se a mamar. Oferece a mama ou o biberão mais vezes, em quantidades menores, e faz pausas. O leite hidrata e, no caso do leite materno, continua a transmitir anticorpos. Vai contando as fraldas molhadas: são o melhor indicador de que está a beber o suficiente.
3. Ambiente adequado
A SPP recomenda, para crianças com tosse, um ambiente com humidade de 50 a 60% e temperatura de cerca de 18 °C. Na prática:
- Quarto arejado todos os dias e sem aquecimento excessivo.
- Se o ar estiver muito seco, um humidificador de vapor frio, limpo diariamente, pode ajudar.
- Nenhum fumo de tabaco em casa ou no carro, nem na roupa de quem pega no bebé.
4. Colo e descanso
Um bebé constipado dorme pior e pede mais colo. Dar colo na vertical, acordado, alivia o nariz e conforta. Ajusta as expectativas para uns dias: sestas mais curtas, noites mais interrompidas. Passa.
5. Febre: tratar o desconforto, não o número
A febre é uma resposta normal à infecção. Se o bebé estiver desconfortável, o médico ou o farmacêutico pode indicar paracetamol, na dose certa para o peso, com a seringa doseadora da embalagem. Nunca dês medicamentos pensados para adultos nem alternes antipiréticos por iniciativa própria. Em bebés com menos de 3 meses, qualquer febre (38 °C ou mais) exige avaliação médica sem demora, antes de dar qualquer medicamento.
O que evitar
- Xaropes e medicamentos para a tosse. A SPP é directa: não recomendar, prescrever ou utilizar medicamentos para a tosse em crianças. Não são eficazes nas constipações e muitos produtos contêm vários princípios activos, o que aumenta o risco de sobredosagem. A tosse é um mecanismo de defesa: ajuda a limpar as vias respiratórias.
- Medicamentos combinados para a constipação (descongestionantes com anti-histamínicos ou analgésicos): desaconselhados pelo menos até aos 6 anos, pelo risco de efeitos adversos graves.
- Descongestionantes nasais de adulto e gotas “para desentupir” sem indicação médica.
- Mel antes dos 12 meses, pelo risco de botulismo infantil. Depois do primeiro ano, uma colher de chá de mel pode aliviar a tosse, segundo a SPP.
- Pomadas com cânfora, mentol ou eucalipto no peito ou perto do nariz de bebés: podem irritar as vias respiratórias.
- Elevar o colchão ou usar almofadas e posicionadores em bebés com menos de um ano. As recomendações de sono seguro mantêm-se mesmo quando o bebé está doente: de barriga para cima, colchão firme e plano, berço vazio.
- Antibióticos “por precaução”: não actuam sobre vírus. Só o médico decide se há uma infecção bacteriana que os justifique.
Sinais de alarme: quando ligar e quando ir
Liga para o SNS 24 (808 24 24 24) ou contacta o médico de família se:
- Tem febre há mais de 2 a 3 dias, ou a febre volta depois de ter desaparecido.
- Está a mamar ou a comer muito menos, ou vomita repetidamente.
- Tem menos fraldas molhadas do que o habitual.
- Tem dor de ouvidos (leva a mão ao ouvido, chora mais ao deitar) ou secreção nos olhos.
- A constipação não melhora ao fim de 10 dias ou piora em vez de melhorar.
- A tosse se prolonga por mais de três semanas.
Procura a urgência ou liga 112 se:
- Tem menos de 3 meses e temperatura de 38 °C ou mais.
- Respira com dificuldade: respiração muito rápida, costelas ou barriga a afundar a cada respiração, narinas a abrir e fechar, gemido.
- Faz pausas na respiração ou tem um ruído intenso ao inspirar.
- Tem os lábios, a língua ou a pele arroxeados ou acinzentados.
- Está muito prostrado, mole, difícil de acordar, ou invulgarmente irritável e inconsolável.
- Tem sinais de desidratação: boca muito seca, choro sem lágrimas, fontanela (moleirinha) afundada, muito poucas fraldas molhadas.
- Tem manchas na pele que não desaparecem quando se pressionam.
Em caso de dúvida, é sempre preferível perguntar.
Constipação, gripe ou bronquiolite?
- Constipação: nariz entupido ou a pingar, espirros, tosse, febre baixa ou ausente, bebé relativamente bem-disposto.
- Gripe: início mais súbito, febre mais alta, prostração, dores; o bebé parece “mais doente”.
- Bronquiolite: começa muitas vezes como uma constipação e, ao fim de 2 ou 3 dias, surgem tosse mais intensa, respiração rápida ou com esforço e pieira (“chiadeira”). É mais frequente nos bebés com menos de um ano, no outono e inverno, e é causada sobretudo pelo vírus sincicial respiratório (VSR). Exige avaliação médica, sobretudo em bebés pequenos, prematuros ou com doenças cardíacas ou pulmonares. A SPP recomenda que não se usem por rotina corticóides e broncodilatadores na bronquiolite: o tratamento é sobretudo de suporte.
Em Portugal, a DGS tem uma campanha sazonal de imunização contra o VSR para bebés no outono-inverno. Pergunta ao pediatra ou ao enfermeiro do centro de saúde se o teu bebé é elegível.
Como prevenir (ou pelo menos reduzir)
Não há forma de evitar todas as constipações, e algumas fazem parte do amadurecimento do sistema imunitário. Mas é possível reduzir o número e a gravidade:
- Lavar as mãos com frequência, sobretudo antes de pegar no bebé e depois de assoar o nariz, tossir ou espirrar. É a recomendação base da DGS para as infecções respiratórias.
- Evitar contacto próximo com pessoas doentes e ambientes muito cheios, sobretudo nos primeiros meses.
- Arejar a casa todos os dias.
- Casa e carro sem fumo de tabaco.
- Amamentação, quando possível: o leite materno transmite anticorpos.
- Vacinas em dia, segundo o Programa Nacional de Vacinação. Vê o calendário de consultas de vigilância.
- Na creche: um bebé doente em casa recupera mais depressa e contagia menos. Vê também adaptação à creche: primeiras semanas.
E o sono?
Um bebé constipado acorda mais. Limpar o nariz antes de deitar, oferecer uma mamada, manter o quarto fresco e arejado e responder aos acordares com calma é o que há a fazer. Quando a constipação passar, o sono volta, às vezes com uma ou duas semanas de reajuste. Se quiseres rever o que é esperado para a idade, vê a tabela de sono do bebé mês a mês e o artigo sobre bebé que acorda várias vezes à noite.
Em resumo
- A maioria das constipações passa sozinha em 7 a 10 dias; a tosse pode durar mais.
- O que ajuda: soro fisiológico e aspiração suave, mamadas frequentes, ambiente fresco e arejado, colo.
- O que evitar: xaropes para a tosse, medicamentos combinados, mel antes do ano, cânfora e mentol, almofadas no berço.
- Menos de 3 meses com febre, dificuldade respiratória, pausas, lábios arroxeados ou prostração: urgência.
- Em dúvida: SNS 24, 808 24 24 24.
Fontes: Sociedade Portuguesa de Pediatria — Recomendações Choosing Wisely (medicamentos para a tosse; bronquiolite) · Sociedade Portuguesa de Pediatria, Portal Criança e Família — Tosse · Acta Pediátrica Portuguesa (SPP) — Revisão sobre combinações de anti-histamínicos, descongestionantes e analgésicos na constipação comum em crianças · Direção-Geral da Saúde — Recomendações na área das infecções respiratórias · Direção-Geral da Saúde — Norma n.º 008/2025: imunização sazonal contra o VSR em idade pediátrica · Moon R.Y. et al. (2022) — Sleep-Related Infant Deaths: Updated 2022 Recommendations, Pediatrics (AAP). Informação geral, que não substitui a avaliação médica.
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